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Os portos da Região do Bio Bio continuam avançando em seus esforços para fortalecer os laços com a província argentina de Neuquén, um mercado cujo desenvolvimento industrial eleva as expectativas dos terminais marítimos chilenos, que buscam se posicionar como atores estratégicos dentro da cadeia logística que se desenvolverá em torno da produção de Vaca Muerta.
Essa proposta tem como ponta de lança um plano para estabelecer um corredor bimodal entre os dois países, onde o modo ferroviário e o rodoviário participem em conjunto dentro de um eixo que promete tornar mais eficiente e rápida a saída das mercadorias geradas no território argentino para a Ásia pelo Pacífico.
Por isso, os recintos portuários do Bio Bio têm exibido uma participação ativa dentro dessa cruzada, pois são as portas para o exterior. Além disso, o projeto também é uma oportunidade para que os terminais captem novos segmentos de cargas e elevem seus números. Nesse contexto, o gerente geral da Puertos de Talcahuano, Cristian Wulf, conversou com o PortalPortuario sobre como se está trabalhando para alcançar o objetivo e afirmou que "estamos muito interessados como portos em nos aproximar do mercado argentino".
Nesta iniciativa para criar um corredor bimodal internacional que conecte com Neuquén, tem-se visto um trabalho em conjunto entre os portos do Bio Bio. Esse fator potencializa a geração de vínculos com os atores logísticos e produtivos da Argentina?
Sim, pode ser algo um pouco inédito e isso é algo que temos que continuar potencializando entre os portos e como região, de ir em conjunto buscar novos mercados. Por outro lado, embora o que gera isso, sem dúvida, seja Vaca Muerta, isso também vai produzindo uma matriz de bens e serviços que, a longo prazo desse boom, gera investimentos diretos no gás, mas ao mesmo tempo também necessita de uma série de outras coisas, tanto de bens quanto de serviços, à medida que for gerando ou for chegando mais gente para trabalhar nesse desafio.
Então isso vai gerando um círculo virtuoso, do ponto de vista das necessidades que serão requeridas em todos os âmbitos. Isso nos abre mais oportunidades, sem dúvida, que partem inicialmente do gás, mas que de alguma forma se projetam e se geram muito além disso.
Em termos de custos, quais são os benefícios que podem oferecer como zona portuária para tornar a iniciativa mais atrativa?
Bem, passa um pouco pela cadeia logística completa, não apenas pelo tema do porto. O porto é um elo de vários e esse é justamente o desafio, de como torná-lo cada vez mais competitivo. Sem dúvida, todo o mercado asiático é muito diferente ao sair pelo Pacífico e isso já gera uma competitividade do ponto de vista dos transit times. O transporte rodoviário também a certas distâncias, dependendo de qual outro porto pudesse ser, também nos torna mais competitivos.
Sem dúvida que o desafio aí é continuar desenvolvendo e trabalhando tudo o que significa a circulação, o transporte, as passagens de fronteira, que talvez seja um dos desafios mais relevantes que ainda teríamos que continuar melhorando, trabalhando entre governos, entre privados e entre todos os atores que intervêm nesse processo.
Aí também entra em jogo a agilização de todos os trâmites e permissões alfandegárias…
Sim, sem dúvida que passa por otimizar temas documentais, também temas da passagem como tal sobre como otimizar os horários de atendimento, de ter os caminhos desobstruídos, de melhorá-los, a infraestrutura viária, etc. Então, são vários aspectos que nenhum deles talvez sejam tão complexos no curto prazo de poder abordá-los, mas há outros que são de médio ou longo prazo, de eventualmente recuperar o tema ferroviário ou, em um primeiro momento, trabalhá-lo por etapas, como pudesse ser este projeto piloto que a EFE está desenvolvendo em Victoria; poder ocupar a capacidade instalada que já existe e ir potencializando outros projetos à medida que isso for avançando.
A base desta iniciativa é a intermodalidade…
Bem, isso já existe, porque de alguma forma uma parte -da carga- chega em caminhão, é transferida para os navios em contêineres ou em outro tipo de cargas. A ideia seria ampliar essa visão de também conectar com a ferrovia e ver como isso pode ser potencializado ainda mais, que haja diferentes tipos de ofertas, de modo a ampliar as capacidades e torná-lo mais versátil, mais flexível e ter múltiplas opções.
Pelo lado argentino, veem-se avanços em matéria de infraestrutura, ferrovia e estradas?
O governador -de Neuquén- falava de projeções que também têm de poder desenvolver e acelerar algumas melhorias em estradas e outras matérias, e ver como potencializar o tema do trem. Em geral, isso é muito bem visto por parte das empresas que estivemos, então acredito que é uma boa oportunidade de potencializar isso, havendo interesse por parte do mercado argentino. Acredito que estamos, nesse sentido, no caminho certo para potencializar isso. As condições estão dadas, cada vez há mais interesse e mais necessidades também de poder usar esta rota.
Há algumas semanas, a Puertos de Talcahuano participou da Jornada Comex Norpatagónica 2026. Que sensações deixou aquele encontro?
Levamos uma impressão muito grata, do ponto de vista não apenas do ecossistema logístico que está presente nesta feira, mas começando pelo convite que nos foi feito aos portos da Região do Bio Bio para sermos participantes desta instância. Também por tudo o que o governador de Neuquén comentou a respeito da oportunidade e da visão que tinha a respeito de como potencializar este corredor bioceânico entre a Argentina e o Bio Bio, e as potencialidades que havia.
Os atores logísticos tinham muito claro que isso existia -a iniciativa do corredor- e que, de alguma forma, a ideia é que com o tempo mais de seus clientes, mais importadores e exportadores se juntem para trabalhar pelo Bio Bio. Houve uma instância com um painel onde estiveram o gerente geral da SVTI -San Vicente Terminal Internacional- e o gerente geral da DP World contando todos os atributos da região, toda a oferta portuária e a disponibilidade que existe. Estamos muito interessados como portos em nos aproximar do mercado argentino.
Poder-se-ia dizer que tiveram bons resultados…
Foi uma ótima oportunidade de nos mostrarmos como região, unidos, e de visibilizar toda essa oferta. Também aproveitamos a oportunidade para convidá-los para as feiras de 6 de outubro que serão realizadas como Mesa Comex e onde também os oito portos da região irão mostrar as capacidades que temos e aí não apenas com o tema argentino, mas também todo o Maule a Los Lagos, de potencializar exportadores e importadores nacionais.
Pode-se considerar que o desenvolvimento industrial de Neuquén depende dos portos do Bio Bio?
Não é que sirva para todo tipo de cargas nem para todo tipo de destinos, mas sem dúvida que em muitos casos será muito mais eficiente poder trazê-las pelo Bio Bio. Isso dependerá também da origem – destino, dependerá se há uma importação ou não. Está claro que para o mercado asiático, sem dúvida que somos uma boa oportunidade para ser utilizados. O tema dos custos, o transit time, são fatores que também estão dentro do espectro de decisões que podem ajudar a eficientizar sua cadeia logística e seus custos do comércio exterior.
Em termos de avanços concretos, o que se poderia ver no curto ou médio prazo?
Há várias coisas. Uma é que no próximo dia 6 de outubro temos a Feira Comex em Concepción, onde a ideia é mostrar todos os atributos da região com relação a toda a infraestrutura portuária, infraestrutura logística e todas as nossas capacidades que temos como Bio Bio para nos mostrarmos em todo o nosso hinterland, do Maule a Los Lagos, e a Argentina também é um convidado especial. Dentro desta feira, a ideia é ter reuniões bilaterais, rodadas de negócios, estandes e painéis de conversação para que esses temas sejam aprofundados ainda mais.
Espera-se que, antes do final do ano, também haja este piloto bimodal ferroviário – rodoviário em Victoria, depois da chegada ao porto na Região do Bio Bio, então esses seriam marcos relevantes que virão até o final do ano para potencializar essas relações, essas melhorias e tirar conclusões deste piloto, em um tema mais operacional e concreto sobre como abordá-lo.
Em quanto tempo mais se poderá ver algo já estabelecido desta conexão internacional?
Acredito que isso tem que ser paulatino, passo a passo e potencializar o que existe. Desse ponto de vista, acredito que é um bom caminho o tema deste piloto, em conjunto com nos darmos a conhecer e potencializar, porque talvez aconteça o mesmo que no Chile com algumas cargas, em que há certos paradigmas e é preciso vencê-los para ir provando e dar o passo.
No caso da carga argentina ocorre um pouco o mesmo, no sentido de que talvez os forwarders ou certos operadores logísticos tenham mais ou menos clara a oferta; talvez falte chegar um pouco mais ao importador e exportador para que dê o passo a ver outras alternativas, como neste caso seria o Bio Bio.
A capacidade portuária já instalada no Bio Bio, incrementa a vantagem da região?
Sem dúvida que essa é uma parte fundamental, diferente seria se tivéssemos que fazer grandes investimentos para poder começar. Há infraestrutura, então isso é chave para começar já e ir escalando isso para outro tipo de projetos mais ambiciosos que possam ser de médio ou longo prazo. No desafio que temos com o Bio Bio 2050, que é uma visão estratégica de como queremos construir a região, um eixo importante e fundamental é o tema logístico.
Em Neuquén estão desenvolvendo uma ferramenta similar, então também é importante que possamos aproveitar essas duas instâncias que estão ocorrendo nas duas regiões e potencializar algumas matérias onde com os temas logísticos, energéticos e bilaterais, sem dúvida que há agendas em comum que temos que trabalhar.

