
Os portos brasileiros vêm ampliando o uso de sistemas de reuso de água e captação de chuva para reduzir a necessidade de água nova nas operações. As iniciativas incluem tratamento de água já usada (efluentes), aproveitamento de águas pluviais e reaplicação da água tratada em atividades como limpeza, manutenção, uso de sanitários e irrigação. Embora não exista ainda um levantamento público nacional que reúna o número de instalações com esses sistemas ou o volume total de água reutilizada, diferentes terminais já apresentam resultados e metas mensuráveis.
Mais do que reduzir o impacto ambiental, o reúso permite diminuir a demanda por água captada para as atividades portuárias. No Porto Sudeste, em Itaguaí (RJ), 86% da água usada nas operações é reaproveitada, índice que praticamente dobrou em relação aos 42% registrados em 2019. O terminal também reduziu em mais de 62% o consumo de água por tonelada movimentada. O sistema conta com três estações de tratamento e reutilização de águas pluviais e uma estação de tratamento de efluentes sanitários.
Água tratada volta para a operação
No Porto Itapoá, em Santa Catarina, uma estação de reúso já permitiu reaproveitar mais de 2 milhões de litros de água. A unidade tem capacidade para tratar até 10 metros cúbicos por dia e usa tecnologia de membranas, que separa impurezas durante o tratamento e permite recuperar a água para usos que não exigem qualidade potável, como lavagem de veículos, manutenção e uso em sanitários. O terminal também trata mais de 7 milhões de litros de água usada por ano.
O princípio é simples: em vez de usar água potável ou captar continuamente novos volumes para atividades que não exigem água de abastecimento, o terminal trata a água usada e a coloca novamente em circulação. A medida reduz a demanda por novos recursos hídricos e amplia o aproveitamento da água dentro da própria operação.
Chuva também vira recurso
A captação de água da chuva é outra frente adotada por instalações portuárias. No Terminal de Belém, da Transpetro, no Pará, um sistema instalado na área de contenção das esferas de GLP tem capacidade para reaproveitar até 3,6 mil metros cúbicos de água por ano. A estimativa é economizar 1,3 mil metros cúbicos de água tratada anualmente, com previsão de redução de 40% no consumo anual de água doce captada.
Em outros terminais, a água reaproveitada também é direcionada para atividades que não exigem água potável. No Porto do Pecém, no Ceará, efluentes tratados são usados na irrigação de áreas verdes e jardins. No Terminal Portonave, em Santa Catarina, a água usada na lavagem de máquinas e equipamentos é reaproveitada, enquanto há previsão de implantação de sistemas para recuperar água da chuva em novas áreas.
Metas para ampliar o reúso
Além das iniciativas já implantadas, organizações do setor começam a estabelecer metas específicas para ampliar a eficiência no uso da água. No plano de ação da Vports – concessionária do Complexo Portuário do Espírito Santo – vinculado ao Pacto pela Sustentabilidade do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), por exemplo, a meta é que 75% das unidades portuárias tenham sistemas de reúso de água pluvial.
O Porto do Itaqui, no Maranhão, também adotou um indicador de eficiência hídrica, com a meta de manter o consumo de água em até três litros por tonelada movimentada por trimestre. Embora o indicador não seja específico de reúso, ele mostra como o consumo de água pode ser incorporado ao acompanhamento do desempenho operacional.
No âmbito do Pacto pela Sustentabilidade, 51 organizações dos setores portuário, aquaviário e aeroportuário aderiram, em 2026, a compromissos e planos de ação relacionados à agenda ESG. O pacto não é específico para gestão hídrica, mas prevê metas, indicadores e ações de sustentabilidade que podem incluir o uso eficiente de recursos e a economia circular.
A adoção de sistemas de reúso e captação de chuva, portanto, representa uma frente em expansão da gestão ambiental dos terminais. Na prática, as iniciativas permitem usar a água mais de uma vez, reduzir a necessidade de novas captações e tornar as operações menos dependentes do abastecimento convencional.

